Torvore, os acontecimentos de 1917

Torvore, os acontecimentos de 1917

OS EVENTOS DE 24 DE ABRIL DE 1917

Pouco passava das 8 horas da manhã quando o cargueiro norueguês Torvore passou o Cabo de São Vicente e a Ponta de Sagres em direcção a Este. Subitamente ouve-se uma detonação à ré e um tiro de canhão cruza a proa do navio. Está um submarino a perseguir o cargueiro.

O comandante Andreas Andreassenordena ao chefe de máquinas que aumente a velocidade a fim de escaparem, e manda rumar a terra. Como o Torvore não para, o submarino inimigo dispara mais três tiros de aviso e aproxima-se perigosamente. O comandante Andreassen percebe que não tem hipóteses de fuga pois o submarino é mais rápido, e só lhe resta mandar parar as máquinas, a fim de evitar que a sua tripulação seja afundada juntamente com o navio.

De bordo do submarino é ordenado que a tripulação abandone imediatamente o cargueiro, o que esta faz rapidamente, levando consigo pouco mais do que a roupa que tem no corpo. O comandante do submarino pergunta, em inglês, porque não pararam ao primeiro tiro. Ninguém responde e este pede toda a documentação do cargueiro. Entretanto já os botes salva-vidas estão encostados ao casco do submarino. O submarino parece não ter qualquer insígnia ou emblema, mas percebe-se agora que falam alemão a bordo. O comandante Andreassen reclama a sua neutralidade, mas os documentos da carga não deixam dúvidas.

O Torvore embarcou 1800 toneladas de carvão no porto de Swansea, no Reino Unido, e dirige-se a Nápoles, ambos portos inimigos. Como tal o seu destino está traçado. Marinheiros alemães deslocam-se a bordo do Torvore e colocam explosivos no porão. Ao comandante Andreassen é ordenado que se dirija para terra. O mar está calmo e rapidamente lá chegará.

TorvoreOs marinheiros alemães são rápidos nos seus procedimentos, pois ainda mal a tripulação do Torvore começa a remar para terra já um outro cargueiro é detido, desta vez, de bandeira dinamarquesa: o Nordsoen, de 1055 toneladas, carregado com conservas. O seu destino é idêntico ao do Torvore e a sua tripulação também não tem outra possibilidade senão remar para a praia nos botes sala-vidas.

Entretanto de Este aproximam-se três outros navios. Toda esta agitação tão perto da costa não passa despercebida e de Sagres é chamado o rebocador a vapor Galgo, que anda em patrulha na zona. Dissimulando-se junto à linha da costa, a fim de não se recortar no horizonte, o Galgo chega à zona cerca das 8h30m da manhã, para encontrar todos os botes salva-vidas a dirigirem-se para terra.

O Torvore afunda-se perto do local onde se lança a armação de sardinha denominada "Maria Josefina" e o Nordsoen está à deriva. Eis senão quando, o submarino navega a passar entre a dita armação de sardinha e terra. É nesta altura que o Galgo faz fogo, mas com um canhão de apenas 37mm, tem poucas possibilidades de atingir o submarino. No entanto o 1º Artilheiro Olegário Pereira Martins, um algarvio de Aljezur de 22 anos e já veterano da campanha de África da Cacimba da Mongua, sabe o que faz e não fora a distância, todos os cinco tiros, bem apontados, teriam acertado no alvo.

O submarino responde ao fogo do Galgo, e o 1º Tenente Alberto Carlos dos Santos sabe que não tem hipóteses contra o canhão de 105mm do submarino. Faz meia volta e dirige-se para os cargueiros que se aproximam a fim de os avisar e evitar que se cruzem com o submarino inimigo.

O cargueiro norueguês Wilhelm Krag navegava para o Reino Unido via Gibraltar, sem carga, só com balastro. Antes de o dia nascer passou o Cabo Santa Maria, em Faro, e perto das 9 horas da manhã estava entre Lagos e o Burgau. O Galgo cruzou-se com ele e tentou avisá-lo do que se passava, mas o comandante Karl Poderson não entendeu. Terá eventualmente visto o fumo do Nordsoen a arder ou reconhecido a silhueta do submarino. Desviou-se para Sudoeste mas pouco depois voltou ao rumo inicial, conseguindo o Galgo aperceber-se que viria a ser interceptado pelo submarino.

É nesta altura que o comandante Poderson manda dar toda a velocidade às máquinas mas imediatamente cai um projéctil muito perto do Wilhelm Krag. As máquinas são mandadas parar e toda a tripulação se prepara para abandonar o cargueiro. De bordo do submarino é chamado o comandante Poderson a apresentar-se com o diário do navio e restante documentação.

O Wilhelm Krag está fretado por uma companhia inglesa e como tal será afundado. Do submarino gritam para que os últimos tripulantes abandonem o navio rapidamente. Nesta altura aproximam-se mais dois vapores que captam as atenções dos alemães, e um deles chega mesmo a abrir fogo sobre o submarino, que se vê na contingência de ter de afundar o Wilhelm Krag a tiro de canhão, de modo a não perder mais tempo, mandando homens a bordo colocar cargas explosivas.

TorvoreO Wilhelm Krag é afundado em frente à praia da Luz com cinco ou seis tiros abaixo da linha de água e o submarino afasta-se em perseguição do cargueiro armado, que é o francês Caravellas, para desistir pouco depois. O comandante Poderson apercebe-se que falam alemão e inglês no submarino e vê um pequeno pavilhão da marinha alemã hasteado. Ainda assim não o identifica como sendo o U-35 do Kapitanleutnant Lothar von Arnauld de La Perière.

Enquanto o U-35 persegue o Caravellas, o rebocador Galgo volta atrás para recolher a tripulação do Wilhelm Krag, que vai desembarcar em Lagos. Nesta altura, e desistindo de perseguir o Caravellas, o U-35 volta ao encontro do Nordsoen, que encalhara junto à Ponta dos Caminhos. La Perière manda então alguns marinheiros alemães a bordo do barco encalhado colocar explosivos, que acabam por o afundar de vez.

Por esta altura já havia muita gente no cimo da falésia, pois toda a acção era visível de terra e suscitou a curiosidade dos populares, que se foram juntando. Os marinheiros alemães chegaram mesmo a subir às rochas e foram trocados insultos e ameaças entre estes e a população civil. O Galgo, depois de desembarcar a tripulação do Wilhelm Krag, volta a Sagres onde recolhe a tripulação do Torvore, composta por 19 homens, e a do Nordsoen, com 16, tornando a regressar a Lagos ao anoitecer. Contudo o dia ainda não tinha acabado, pois ao atracar em Lagos já estava a ser chamado novamente para Sagres.

O U-35 tinha afundado um lugre italiano ao final da tarde, o Bienaimé Prof.Luigi, de 265 toneladas e com um carregamento de caulim, após ter tirado 900 litros de água potável de bordo deste. Ainda no mesmo dia o Kapitanleutnant Lothar von Arnauld de La Perière ruma a Gibraltar sem mais demoras.
Excerto do Texto de Paulo Costa publicado na Planeta d’Água.

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