A Canhoneira Faro

A Canhoneira Faro

Autor da fotografia: Comandante Augusto Salgado.

A descoberta da Canhoneira Faro deve-se aos nossos companheiros de mergulho Tiago Fraga e Felizardo Pinto, que no âmbito do projecto de prospecção arqueológica da Baía de Lagos, encontraram os destroços de um navio de ferro movido a vapor.

Investigações posteriores permitiram identificar o destroço como sendo o navio da Marinha de Guerra Portuguesa Faro.

Movidos pela curiosidade e pelo desejo de proporcionar aos nossos companheiros de mergulho a maior informação possível sobre os spots de mergulho que visitamos, decidimos procurar mais informações sobre a canhoneira, bem como sobre os tristes acontecimentos que conduziram à tragédia e ao seu afundamento.

A canhoneira Faro foi construída em Inglaterra nos estaleiros de Londres em 1878, para integrar a esquadrilha fiscal da costa, tendo custado 6.000 Libras.

Tinha 27 metros de comprimento, 4,7 metros de boca e 136 toneladas de deslocamento. A sua caldeira a vapor proporcionava 200CV de potência com uma velocidade máxima de 10,4 nós.

Tinha ainda uma peça de artilharia Canet de 47mm. A guarnição era composta por dois oficiais e vinte e oito marinheiros.

No dia 27 de Fevereiro de 1912 a canhoneira Faro levou uma comitiva formada entre outros por um ministro inglês e pelo cônsul de Inglaterra num passeio até Sagres.

Após ter largado os visitantes em Lagos, a canhoneira dirigia-se para Faro, quando ao largo de Alvor, por volta das sete da tarde, foi abalroada pelo rebocador Josefine que vinha de Portimão e que lhe abriu um rombo pela amura de bombordo.

A tripulação da canhoneira apenas teve tempo de arrear dois botes e rumar a terra com os sobreviventes. Nesta altura seguia também a bordo dos botes o comandante Henrique Matzner, que no entanto veio a falecer de congestão ao chegar a terra.

Ao todo pereceram oito homens neste acidente. Da canhoneira Faro perdeu-se o seu comandante, o imediato, um maquinista, o primeiro contra-mestre e um grumete.

Do rebocador Josefine faleceram dois tripulantes queimados. A canhoneira apenas flutuou por 10 minutos após o embate, tendo-se afundado a nove braças de profundidade, ficando de fora de água metade dos mastaréus. O Josefine, apesar dos estragos à proa, devido aos seus compartimentos estanque não se afundou, tendo sido rebocada pelo vapor Colombo.

A Canhoneira Faro

100 anos depois... Tendo cumprido o seu centésimo aniversário, com a colocação de uma placa pela Marinha e a Subnauta recordando o acontecimento, a Canhoneira Faro ascendeu à categoria de naufrágio de interesse histórico-arqueológico.

Ao mergulhar a caldeira sobressai de imediato. O seu tamanho, reduzido quando comparado com o Wilhelm Krag ou Torvore, é compensado pela quantidade de vida que reúne no seu interior e também no topo. No interior somos frequentemente brindados com a presença de santolas, navalheiras e camarões que fazem companhia a dois ou três safios de médio a grande porte.

Dois deles, os maiores, foram já baptizados pela Subnauta. Trata-se do Anzol e do Amostra e impressionam todos os mergulhadores que os avistam.

O primeiro pelo seu tamanho e o segundo porque, apesar de já ser bastante grande, é amistoso e não hesita posar para as fotografias e regatear por uma festa na cabeça.

No topo da caldeira, plantada de gorgóneas de várias cores, encontramos frequentemente cardumes de safias, sargos e bogas e por vezes um grande rascaço ou mesmo um polvo ou choco.

A partir da caldeira o navio parte-se em dois. Para a popa há um seguimento linear do que resta do casco até que encontramos o leme ainda intacto e preso à estrutura.

Na "caverna" que a popa e o leme formam é comum encontrarmos ninhos de santolas gigantescas, normalmente acompanhadas por navalheiras grandes. Entre a caldeira e a popa, em tubagens e reentrâncias encontramos desde polvos e navalheiras, lesmas do mar, pequenos safios, moreias, rascaços e inúmeras espécies de cabozes. Da caldeira para a proa o casco encontra-se espalhado e desfeito em chapas. Debaixo das chapas encontramos safios, moreias, camarões, navalheiras e por vezes ninhos de peixe-porco.

Entre as chapas avistam-se frequentemente solhas, salmonetes e peixes-aranha gigantes que oram buscam refúgio ou se alimentam na areia.

No fundo, trata-se de um pequeno naufrágio, em parte degradado, sem a imponência de grandes navios, mas com uma profusão de espécies que dão um colorido a um fundo de areia e que funciona como um oásis. Sem dúvida um dos melhores pontos de mergulho que muitos mergulhadores tiveram a oportunidade de conhecer e de repetir sempre com agradáveis surpresas.

As principais entidades que apoiam o projecto Ocean Revival: